Ecce Homo

um poema de Cecília Meireles

2 min de leitura

ingem-lhe a fronte pálida e serena
Espinhos. Tem na face o laivo imundo
De escarros de judeus. No olhar profundo
Bailam trêmulas lágrimas de pena

E dó, pelas misérias deste mundo.
Pilatos, vendo-O assim, à turba acena:
– Ecce homo! – lhe diz. Mas a atra cena
Ao povo não comove, furibundo.

Do sangue de Jesus tem voraz sede,
Tem-lhe da carne fome, a plebe ignara!
E sobre o homem se lança, – como cães –

Que de peixes a Pedro enchera a rede,
Nas bodas a água em vinho transformara,
Multiplicara, no deserto, os pães!…

Na época da publicação do livro Espectros, Cecília Meireles tinha apenas 18 anos e ainda bebia muito da tradição literária, muitas vezes remetendo-se aos parnasianos. O livro é totalmente escrito em sonetos, que revisitam cenas históricas, como o incêndio de Roma, provocado por Nero, e a vida de Cleópatra e Marco Antônio.

No poema “Ecce Homo”, Cecília narra a jornada de Jesus Cristo até sua morte, de maneira narrativa e sem abstrações.

O poema começa in media res (no meio da ação), com a imagem de Cristo sendo agredido, cuspido pelos judeus e coroado com espinhos. Não há espaço para lamentações do eu-lírico: a narrativa é direta e impessoal. Aqui, cabe apenas ao leitor expressar os seus lamentos:

Cingem-lhe a fronte pálida e serena
Espinhos. Tem na face o laivo imundo
De escarros de judeus. […]

Porém, Cecília não é totalmente isenta na narrativa: ainda que o eu-lírico exponha as imagens de forma “indiferente”, a narrativa é permeada por contrastes. Primeiro, ela expõe a cena de horror; logo em seguida, retrata a atitude e o caráter bondoso de Jesus Cristo, incutindo, assim, o sentimento de injustiça no leitor.

Na primeira estrofe, enquanto é humilhado com os furos dos espinhos e com os cuspes dos judeus, Jesus apenas observa a multidão e chora de compaixão pelas misérias do mundo, sem demonstrar qualquer atitude de revolta.

Na segunda e na terceira estrofes, a poeta novamente retrata a maldade. À multidão, o homem é exibido (“Ecce homo!”), enquanto os homens, comparados a cães, querem sua carne e sangue.

Essa, que é a cena mais forte e visual do poema, se contrapõe aos milagres de Jesus, o homem que multiplicou o pão no deserto, encheu a rede de Pedro com peixes e transformou a água em vinho.

Cecília constrói o soneto por meio de contrastes e, como a tradição manda, reserva simbolicamente a última estrofe à resolução das tensões do poema com as imagens de santidade de Cristo.

Assim como Pilatos disse “ecce homo” para apresentar Jesus à multidão, Cecília Meireles nos diz “ecce homo” para demonstrar, por meio de contrastes, quem Jesus realmente era.

Quer saber mais sobre poesia? Siga nosso perfil no Instagram!

Continue lendo

Receba nossas newsletters semanais

Fique por dentro de todas as novidades da Logopeia. Coloque seu melhor e-mail e inscreva-se.